EM BUSCA DA TERRA SEM MAL

"Singular e assombroso o destino de um povo como os Guarani!
Marginalizados e periféricos, nos obrigam a pensar sem fronteiras
Tidos como parcialidades, desafiam a totalidade do sistema.
Reduzidos, reclamam cada dia espaços de liberdade sem limites
Pequenos, exigem ser pensados com grandeza.
São aqueles primitivos cujo centro de gravitação já está no futuro.
Minorias, que estão presentes na maior parte do mundo."
(Bartomeu Meliá)

Pressionada pelo avanço da colonização européia, a população Guarani que permaneceu fora das reduções e do âmbito de ação de encomendeiros e bandeirantes foi sendo paulatinamente empurrada para as matas adjacentes ao Rio Paraná. Ali permaneceu escondida e, por isso mesmo, preservada. Somente com os transtornos causados pela Guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai versus Paraguai), de 1865 a 1850, esses grupos que até então viveram relativamente isolados iniciaram uma reocupação dos territórios antigamente habitados por outros grupos Guarani. Muitos criaram pequenas aldeias do Oeste brasileiro. Outros deslocaram-se em direção ao centro do país e do litoral atlântico em busca da "Terra Sem Males". Uma dessas migrações foi acompanhada pelo indigenista alemão Kurt Unkel, batizado "Nimunedaju" pelos indígenas. Ele registrou o discurso fundador desta mobilização:

"Ñanderuvusu (Nosso Grande Pai) veio à terra e faliu a Guyrapotý(nome do xamã incubido de liderar a partida): ‘Procurem dançar!, a terra quer piorar!’ Eles dançaram durante três anos quando ouviram o trovão da destruição. A terra desabava pelo oeste. E Guyrapotý disse aos seus filhos: ‘Vamos! O trovão da destruição causa temor’. E eles caminharam, caminharam para o leste, para beira mar. E eles caminharam. E os filhos de Guyrapotý lhe perguntaram: ‘Aqui não vai surgir de imediato a ruína?’ – ‘Nâo, aqui a ruína vai surgir após um ano, dizem’ . E seus filhos fizeram roça." (Nimuendaju, 1987, p.155).

Movimentos como esse foram consideravelmente intensificados com o avanço das colonizações brasileira e paraguaia sobre a mata contígua ao rio Paraná. O caminho percorrido por esses novos "viandantes" foi o seguinte: do Paraguai passaram para a Argentina e de lá, na busca da costa Atlântica, para o Brasil. Hoje encontram-se e pequenas comunidades desde o Rio Grande do Sul até o Pará, em terras pertencentes a outros grupos étnicos, em moradias improvisadas a beira de estradas, em terras cedidas por prefeituras ou em territórios administradas por entidades ambientalistas.

 

Causas do Êxodo

Na motivação que os impulsiona a caminhar aparece claramente a necessidade de ter um lugar onde lhes seja possível viver em segurança seu antigo modo de ser. A causa ultima de seu "nomadismo" deve à busca da "Terra-Sem-Males", que, na orientação espacial do grupo, fica do Atlântico, como pode ser verificado nos seguintes cantos:

Che kyvy’i, Che kyvy’i, ereo rire Meu irmãozinho, meu irmãozinho, você se foi
Ejevy voi jaa aguã, ejevy voi jaa aguã  Retorne logo, retorne logo
Jaa mavy, jaa mavy joupive’i Para irmos juntos, para irmos juntos
Para rovaí jajerojy, para rovaí jajerojy Reverenciando a Deus, no outro lado do Oceano.
(Memória Viva Guarani – Canto 04)
Ore ru, rembo’e katu ne amba roupity aguã   Nosso Pai ensina-nos a chegar a tua morada.
Ñañembo’e, nãñembo’e e’i 

Rezemos, rezemos

Pra rovái jajapyra aguã Para atravessarmos o outro lado do oceano
ajerory, jajerovy Reverenciamos ao Pai
ajapyra aguã  Para atravessar para o outro lado do oceano
(Memória Viva Guarani – Canto 04)

A causa penúltima do êxodo indígena, porém, se encontra no Oeste. Poucos anos depois do término da "Guerra do Paraguai" ou "Guerra Grande", o governo paraguaio outorgou ao cientista suíço Moisés S. Bertoni (1857-1929) uma superfície de 10.000 hectares de marta virgem, alienando assim uma parte da terra habitada pelos Mbyá-Guarani (Burri, 1993, p.28). Semelhantemente, outras pessoas e empresas adquiriam enormes propriedades na região. Valha como exemplo "La Industrial Paraguaya S.A", que concentrou uma área correspondente a 17% das terras da região oriental do Paraguai (3.502.727) e dedicou-se a exploração de erva-mate (Garlet, 1997, p.41).

A causa mais gritante da atual dispersão, porém, é sem dúvida a colonização que se intensificou, na segunda metade deste século, na região de fronteira entre o Paraguai e Brasil. Uma das características da ocupação das terras dessa região é a violência com a qual a natureza foi subjugada e posta a serviço do "progresso". A monocultura avançou derrubando matas, expulsando os indígenas que nelas habitavam ou sujeitando-os como peões baratos ‘as novas fazendas, cujos proprietários são, na maioria, brasileiros.

 

História nada exemplar

É curioso e "irônico" constatar que, enquanto os Mbyá-Guarani que percorrem o litoral e a região Sul do Brasil são considerados "índios paraguaios" por órgãos do Estado brasileiro – que tentam, desse modo, evadir-se da responsabilidade frente a esses indígenas -, a terra que eles e seus ascendentes habitavam no Paraguai está, em grande parte, sob o poder dos "brasileiros de Stroessner". Esses proprietários são chamados assim pelos paraguaios por terem adquirido a partir de 1962, no tempo do Ditador do Paraguai, grandes extensões de terra a preço baixíssimo. Nem o Brasil tampouco o Paraguai levaram em conta que, ao lotear essas terras, não estavam só se aliando para o "progresso", mas desbaratando a fonte que abastece a economia, a sociedade e a religião de uma cultura milenar.

A vida dos Mbyá-Guarani que permaneceram na região como mão de-obra barata nas fazendas é comentada como "uma história nada exemplar" por Stefanie Burri. Vivendo já na quarta geração quase exclusivamente da "changa" (serviço esporádico remunerado), a autora nota entre esses indígenas: desintegração social e religiosa, individualismo, solidão e consumo excessivo de bebida alcoólica. Para ela, o pessimismo é maior, quando, além de saber que a "Terra-Sem-Males" já não existe, ninguém a procura.

Mas voltemos aos Mbyá-Guarani retrados por Paulo Porto Borges, esses que falam do yvy marae’y como uma terra preservada para eles e que alcançarão em breve.

A busca da "Terra Sem-Males" tem sido interpretada, erroneamente, como algo utópico, como um não-lugar. Como se, para aperfeiçoar a vida e se aperfeiçoarem, os indígenas pudessem prescindir de espaços concretos.

A Terra Sem-Males

Essa interpretação tem favorecido um certo descompromisso dos agentes indigenistas  que atuam entre os Mbyá-Guarani, no sentido de intermediar as reivindicações dos indígenas perante as instâncias decisórias do Estado. Se essa atitude persistir e não for revertida a situação atual (das 63 áreas de ocupação hoje existentes na região Sul do Brasil, pouquíssimas são demarcadas ou mesmo homologadas) para Garlet e a Assis não resta dúvida de que "o único espaço que restará aos Mbyá-Guarani será projetado para o além".

Em parte, essa postura pode ter sido influenciada pelos próprios indígenas. No passado, estes foram contrários a demarcação de seus espaços específicos para eles, por negarem o direito à apropriação individual de bens comuns e por entenderem que a demarcação de espaços poderia obriga-los a uma sujeição ao Estado Brasileiro. Nos últimos anos, porém, os Mbyá-Guarani tem reivindicado para si o direito a terra, como é cantado na canção 09 do CD recentemente gravado por eles:

Peme’e jevy, peme’e jevy Restituam, restituam

Ore yvy peraa va’ekue A nossa terra que vocês tomaram

Roiko’i aguã Para que a gente continue vivendo

O discurso religioso que sustenta a reivindicação é a convicção de que, para alcançar a "Terra Sem-Males", é preciso viver conforme o sistema Guarani: caçar, plantar e celebrar como um Guarani. Para tal, é imprescindível a terra (tekoha), pois, sem ela não há cultura (teko).

Particularmente, a situação fundiária dos Mbyá-Guarani acampados à beira de estradas e mais periclitante. Esses acampamentos estão situados ao longo das rodovias públicas dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Garlet e Assis escrevem a este respeito:

"A preferência é por locais onde seja possível encontrar faixas de mata e alguma oferta de matéria prima para a confecção de artesanato (...). Conseqüentemente, as famílias (...) dependentes estão continuamente expostas a mais gritante miséria, enfrentando a fome, alta incidência de doenças, impossibilidade de manter ativadas práticas culturais importantes como os rituais religiosos e morando em insalubres barracos cobertos de lona plástica" (1999, p. 13)

A atitude que predomina, porém, não de desespero. Assim, quando os Guarani ouvem o branco dirigir-se a eles como quem não tem mais cultura por não ter mais tradição, eles reagem e afirmam que os Guarani existem e que existirão sempre. É o que eles tentam dizer ao mundo ao publicar suas músicas no CD "Memória Viva Guarani". Mesmo ameaçados pelo "Mal-Sem-Terra", têm dado um belo testemunho de amor à vida, de que vale a pena interromper a falta de esperança e entoar um canto!

Graciela Chamorro

Extraído do livro:Cadernos do COMIN. Os Guarani:sua trajetória e seu modo de ser.

 

Bibliografia:

BURRI, Stefannie. Um pueblo em dispersión, los Mbyá. Acción, 1(137):27-30.  Asunción, 1993.

GARLET, Ivori. Mobilidade Mbyá: história e significado. Porto Alegre, PUCRS,  1997. 200p. (Dissertação de Mestrado)

NIMUENDAJU, Kurt Unkel. As lendas da criação e destruição do mundo como fundamento da religião dos Apaspocuká-Guarani. São Paulo: Edusp/HUCITEC, 1987.