Este artigo tem como objetivo discutir como os grupos indígenas Guarani internalizam seu reko porã ("bom modo de proceder") junto as suas crianças e constroem seus conceitos de infância e trabalho, no intuito de formarem o chamado Guarani ete, ou seja, o (a) Guarani verdadeiro.

SONHOS E NOMES

Há algum tempo atrás, o guarani Luís Werá (cuja mulher encontrava-se grávida) me confidenciou que havia sonhado com a alma de seu futuro filho. A alma havia aparecido em um sonho e sussurrado que seu nome também seria Werá. Segundo Luís, isto é um bom sinal, por que este nome é um nome "forte", indicando que o meninozinho (Luís já sabe que seu filho será do sexo masculino, pois isto também lhe foi soprado pela alma) chegará sem problemas até a fase adulta, sendo imune a doenças e feitiços que por ventura lhe atinjam ou lhe joguem. Entretanto, ele ainda aguardava com indisfarçada ansiedade a confirmação final do rezador. Pois, somente ele, o nhanderu’i , poderia referendar ou não o nome que seu filho lhe contou em sonho. Afinal, cabe a ele, o rezador da comunidade, o sacerdote e profeta da palavra, a derradeira confirmação, que também lhe viria em forma de revelação.

Na concepção guarani, o que determina o nome é justamente a região de onde vem a alma da criança, não sendo jamais uma decisão arbitrária dos pais. É a partir do "lugar de onde vem a alma" é que o nome será constituído. E, ao saber sua origem, que sempre é dada pelo próprio filho (ou filha) através de sonhos, os pais também saberão suas qualidades e características individuais. Cada região do "zênite" possui determinados aspectos, assim como seus moradores. A origem do nome permite prever um pouco do percurso futuro desta criança que ainda sequer nasceu, seus gostos, jeito de ser e possíveis caminhos a serem percorridos.

Entre los Mbya el proceso de recepción del nombre se atiene fundamentalmente a las mismas normas cuando el niño (a) todavía no tiene nombre es sujeto de cólera, raíz y origen de todo mal. "Solamente cuando se llame por los nombres que nosotros los Padres de la palabra les damos, dejarán de encolerizarse". Este nombre es, parte integrante de la persona y se lo designa con la expresión ‘ery mo’ ã a’, 'aquello que mantiene en pie el fluir del decir'.

Segundo os guarani, é através das diversas regiões celestes que as almas das crianças guarani chegam aos seus respectivos pais. Cada ponto possui nomes típicos representando a origem das crianças. Quem efetivamente dá o nome, batizando a criança, é o rezador da comunidade, sempre através de sonhos e visões. O antropólogo Curt Nimuendaju afirma algo semelhante: o rezador é quem determina "que alma veio a ter conosco". Esta pode ter vindo do "zênite" (espaço imediatamente acima de nós), onde vive Nãnderyquy, do oriente, morada Nandecy ou ainda dos longínquos domínios de Tupã, no ocidente. Ainda segundo Nimenudaju, alguns do nomes mais usuais entre os homens guarani Mbya são: Tupãju, Jiguacañyjí, Avapoty (ava = homem / poty = flor), Poyijú (miçanga), Avajupiá (jupiá = subir), Nimunedajú (muendá = fazer moradia), Mbaracábeí, Kuruayju (kuruay = sol), Wera’i (pequeno brilho), karai Katu (luz verdadeira) e Karai Mirim (karai = dono/senhor / mirim = pequeno). Entre as mulheres: Tacuapú (pú = troar), Tacuaverá (verá = brilhar), Tacuayvay (yvay = céu), Ñapycá (apycá = banco), Ara (dia) e Kereju.

Os pajés são capazes de reconhecer, pelo nome, se a alma de seu portador veio do oriente, do zênite ou do ocidente; eu só o posso fazer nos pouquíssimos casos em que o nome se relaciona diretamente com as coisas próprias das divindades ali residentes. Tapejú se refere ao caminho para leste. Ñapycá vem do oeste, pois apyca é o banco em forma de canoa em que o deus ocidental do trovão Tupã viaja pelos céus provocando as trovoadas. Estas crianças de Tupã se distinguem ainda pelo cabelo menos liso que o usual, tendendo a ser ondulado. A alma de tais crianças está tão habituada ao uso do apycá que se deve, aqui na terra, fabricar-lhe um o quanto antes, no qual possam sentar; não o fazendo, é impossível que a alma se acostume aqui: ela retorna a Tupã e a criança morre.

Em sua grande maioria são nomes que remontam uma profunda religiosidade, relacionando-se quase sempre a idéia de luz, desde o brilho ao troar do relâmpago, que são elementos fundamentais na mística guarani. Como também os diversos instrumentos utilizados durante a reza, como o maracá e o tacuapy. Assim como é comum os cristãos nomearem suas crianças com referências bíblicas, como João ou José, as crianças guarani recebem no nome toda carga espiritual do seu povo. Um arcabouço cultural que é repetidamente internalizado entre todos membros do grupo – e, principalmente durante a infância. É de se destacar que, a força cultural destes povos, reside basicamente nessa socialização, na qual alternam-se experiências individuais e coletivas. Bartomeu Meliá afirma que toda a reconhecida persistência cultural guarani encontra-se justamente neste trato com o sagrado. Somente o rezador poderá definir, através de seu contato com Ñanderu, de onde vem a alma e, dessa forma, definir seu nome. Mas, não só é permitido, como é esperado, o pai se adiantar ao rezador e entrar em diálogo por conta própria com a alma da criança. Entre os grupos Guarani a experiência religiosa não é privilégio apenas dos rezadores ou sacerdotes, mas permeia toda vivência comunitária em uma grande festa coletiva.

Ainda segundo os guarani, nos tempos antigos, a revelação do nome dava-se por volta dos dois anos de idade, mas hoje em dia "tem alguns que não querem esperar mais e dão nome bem antes". Com o advento do contato e a relação com o poder estatal, surgiram certas modificações em relação ao trato do nome, como por exemplo, a necessidade sentida por alguns em receber um nome na língua do conquistador. Entretanto, apesar da poderosa pressão da cultura hegemônica, esta modificação tem um caráter superficial, pois todos continuam com seus nomes revelados, ou nomes "verdadeiros". A diferença acontece em relação à importância que se dá ao nome "verdadeiro" e ao nome em português. Os guarani de Itariri relatam uma divertida história sobre este assunto, segundo contam, quando o cacique foi retirar a segunda via do documento de identidade de parte da comunidade, ele simplesmente esqueceu do sobrenome de várias famílias do grupo, e, rebatizou-os todos como "da Silva" sem muita hesitação. E ainda hoje isto é motivo de troça entre os guarani de Itariri, não havendo qualquer tipo de represália em relação ao cacique, que também dá boas risadas quando esta história é relembrada. Afinal, este nome não é o nome revelado e, por pertencer ao mundo não-índio, possui pouco significado para o portador, podendo ser alterado sem maiores traumas. Ao contrário do nome verdadeiro, este sim fundamental para quem o carrega. Em relação ao batismo cristão "los Guaraní encuentran ridículo que el sacerdote católico tenga que preguntar a las padres del niño cómo ha de llamarse su hijo". Ainda segundo Meliá:

Não conferem a mínima importância, porém, a seus nomes cristãos, trocando com freqüência aquele recebido no batismo católico. Eles acham profundamente ridículo que o sacerdote cristão, que sempre se julga superior ao pajé pagão, pergunte aos pais da criança como esta se deveria chamar. Pretende que é padre e sequer é capaz de saber determinar o nome certo da criança! Daí o menosprezo do Guarani ao batismo cristão e aos nomes portugueses.

Os guarani prestam tanta importância ao nome que lhes foi revelado, a ponto de, como último recurso em caso de doença de morte, o rezador rebatizar o doente através de rituais, a fim de que o mal não continue naquele corpo. Não é raro encontrarmos guarani que, ao saudá-lo pelo nome, ele finja não ouvir e faça questão de não atender. De imediato, outros nos avisam que o seu nome foi mudado, ele agora possui um novo e se voltará apenas a este. No antigo nome toda doenças e eventuais feitiços ficam aprisionados, é urgente esquecê-lo o mais breve possível, a fim de estes malefícios também desapareçam. O nome guarani "é um pedaço de seu portador, ou mesmo, quase idêntico a ele, inseparável da pessoa. O Guarani não ‘se chama’ fulano de tal, mas ele ‘é’ este nome" .

Durante as grandes revoltas Guarani no século XVII, na América Espanhola, a primeira preocupação era justamente renegar o nome em espanhol, adquirido através do batismo católico, e rebatizar-se:

En los momentos de rebeldía anticolonial, el guaraní tomaba conciencia de que su nombre español le había hecho perder su identidad, y por esto la insistencia de los chamames por rebautizar a fin de reencontrar para cada no su nombre y su ser verdadero.

Entendendo a importância do nome para o percurso e socialização do Guarani, percebe-se que neste grupo existe uma outra lógica em relação ao trato com a criança, que é quem, na verdade, escolhe o nome, ou melhor, traz o nome. É como se esta já viesse pronta, com suas vocações e possibilidades de ação . Dependendo de sua origem, de seu lugar celeste, ela poderá ser um grande rezador ou uma grande liderança política, e é bom lembrar que entre os Guarani é muito comum as mulheres exercerem funções religiosas e, devido a isso, tornarem-se líderes de suas comunidades, como caso da Karaí Cunhã Catarina, rezadora da aldeia de Aracruz/ES, que até sua morte foi a principal líder deste grupo.

O fato de a criança escolher seu nome é também o fato da criança escolher seus caminhos, a revelia dos pais, que tem como função apenas facilitá-lo na medida do possível, pois este já foi traçado anteriormente. O principal objetivo dos adultos guarani é possibilitar a formação do que eles chamam de guarani eté, ou seja, um guarani de verdade. Uma pessoa que possua todas características de um bom homem ou uma boa mulher guarani, que entre outras, é ser religiosa e avessa à sedução das coisas do mundo não-indio. Nos primeiros anos, a grande preocupação dos pais é assegurar o crescimento da alma, pois a criança ainda está fraca e vulnerável. Nesse período é comum os pais adotarem a criação de animais domésticos como galinhas e cachorros, que servem de anteparo protetor a qualquer malefício de venha do mundo exterior, como doenças e feitiços, pois, os pais e os filhos ainda estão vulneráveis as maldades do mundo

Como por exemplo, o acontecido na comunidade guarani de Brakuí em 1998, quando agentes de saúde municipais, preocupados com a quantidade de cachorros infectados com sarna e carrapatos, acharam por bem organizar uma aplicação geral de parasiticidas em todos animais da comunidade. O resultado foi tão bom, que em pouco tempo, a cachorrada restabeleceu-se em cães saudáveis. Entretanto, neste mesmo período, houve uma curiosa epidemia de gripe nas crianças da aldeia. De imediato, os mais velhos reuniram-se na casa de reza (opy guasu) e após horas de jeroky, referendaram que, como os cachorros ficaram muito fortes e bem de saúde, estavam imunes a doenças e feitiços, os quais, resvalando nestes, iam de encontro aos membros mais fracos da família. A saúde dos animais domésticos, no caso, cães, tornaram vulneráveis as pessoas mais frágeis da comunidade, ou seja, as crianças. Pois, apesar da criança ser um uma "pessoa completa", ela inspira vários cuidados em seus primeiros anos de vida, devido a sua fragilidade perante a um mundo que é considerado ñeychyrõgui arauka i anguãema (‘terrível e imperfeito ")".

Segundo Bartomeu Meliá:

A preparação para assegurar a vida e alma da criança começa já durante a gravidez. A mulher nesse tempo devo abster-se de toda comida pesada (banha, sal, etc) e lhe está tabuada a carne de um grande número de bichos do mato. (...) Assegurar o crescimento da alma da criança é a maior preocupação dos pais . Pais e filhos estão em ‘estado quente’ e são numerosas as ameaças contra os quais se têm que defender. Continuam as proibições alimentares. O pai deve se abster de trabalhos pesados. Deve sobretudo evitar comportamento violento. Arco e flecha ou arma de fogo não deve usar nem para caçar. Mas pode pescar e colocar armadilhas. A criança mama quando quer, recebe o máximo de atenção, procura-se satisfazer suas necessidades. O período de lactência estende-se até os dois anos, ou às vezes mais. O desenvolvimento da alma, que em guarani é chamada ‘palavra’, se considera completo, quando a criança começa a pronunciar suas primeiras palavras. É então quando o ‘vidente’, uma classe de pajés, talvez vá descobrir o nome religioso da criança, isto é, o nome daquela alma-palavra estabelecido já antes do seu envio para se assentar, como sobre um banquinho, no corpo da sua futura mãe.

Até os três anos, as crianças guarani são internalizadas culturalmente no reko (costume) por todo o grupo social. Ë papel da sociedade como um todo a formação daquele indivíduo em um bom guarani, partilhando o seu dia-a-dia desde a interação do nascimento até a imersão completa na rotina cultural.

Após os primeiros anos, pequenos trabalhos, como buscar lenha ou mesmo cuidar dos irmãos e parentes menores, já se encontram no universo destas crianças, que os desenvolvem de acordo com suas capacidades físicas e sexualidades. Com o tempo, estarão acompanhando os pais em seus afazeres rotineiros, sendo que, cada vez mais, a divisão sexual do trabalho se fará patente. No caso das aldeias do litoral paulista e carioca, as meninas guarani ajudarão a mãe na confecção e venda de artesanato durante as feiras municipais ou mesmo nas margens de BRs. Os meninos, quando um pouco maiores, acompanharão os adultos em suas incursões as aldeias próximas, irão as cidades vizinhas e, provavelmente, começarão a explorar o palmito nativo existente em suas áreas. Porém, em todos os casos, a iniciação religiosa começa imediatamente após o assentamento da alma, ou seja, o nascimento. É comum encontrarmos nas opy guasú (casa-de-reza), diversas mães rezando, dançando e embalando seus filhos recém-nascidos ao som dos cantos e do maracá. A iniciação à religiosidade guarani, é, certamente, a primeira socialização formal do grupo. Nesse sentido, não há limite de idade, talvez, devido à criança ser originária das regiões celestiais, ela esteja realmente muito mais próxima ao que entendemos como sagrado. Mesmo assim, existem entre os Guarani (em especial, junto aos Kaiowá, no Mato Grosso do Sul) certas práticas ritualizadas de iniciação dos jovens no mundo adulto, como o Kunumi pepy, momento no qual os jovens meninos recebem prescrições dos mais velhos (seus padrinhos) no sentido de "serem perfeitos" (imarangatuvarã) e preparam-se para perfuração do lábio, e a utilização do adorno labial denominado tembetá, sinal fundamental dos grupos Guarani. Esta marca é exclusiva dos meninos Guarani, cabendo as meninas entoar (junto com os demais adultos) os cânticos e as rezas específicas para que o rito ocorra com sucesso.

Na festa do Kunumi pepy, que pode durar vários dias, os padrinhos cuidam dos seus escolhidos e cantam seus deveres em relação aos jovens durante a festa de perfuração labial:

Kunumi ambojegua Eu adorno o menino

Kunumi poty ambojegua Adorno a flor do menino

Kunumi ambojegua Eu adorno o menino

Kunumi ku’akuaha ambojegua Adorno o cinto do menino

Kunumi ambojegua Eu adorno o menino

Kunumi ñe’e ambojegua Adorno a palavra do menino

Kunumi ambojegua Eu adorno o menino

Kunumi jeropapa ambojegua Adorno o relato da história do menino

Kunumi ambojegua Eu adorno o menino

Kunumi aupeguáko ore Nós somos os que cuidam da alma dos meninos

Kunumi(a) jasuka marane’y Somos os que cuidam da essência

Aupeguáko ore do jeito do bom proceder dos meninos

Kunumi aupeguáko ore Nós somos os que cuidam da alma do menino

He’i Ñengaju Assim diz Ñengaju

Kunumi mba’ekuaa marane’y Somos os que cuidam do saber

Aupeguáko ore do bom proceder dos meninos

Kunumi aupeguáko ore Somos os que cuidam da alma dos meninos

He’i Ñengaju Assim diz Ñengaju

Kunumi(a) jeguaka marane’y Somos os que cuidam da diadema

Aupeguáko ore do bom proceder dos meninos

Kunumi aupeguáko ore Somos os que cuidam da alma dos meninos

He’i Ñengaju Assim disse Ñengaju 

Neste puraheí (canto) percebe-se toda cautela que se tem na preparação do jovem em sua entrada para o mundo dos homens, que não é qualquer mundo, mas o mundo dos homens guarani. É necessário cuidar da alma, adornar a história e ensinar o bom proceder, pois, somente com a sua plenitude, tanto religiosa como de sua origem (que se confundem em seus significados) é que será possível a continuidade do reko, que será possível a construção do guarani eté.

O rito de passagem das meninas para o mundo adulto acontece durante sua primeira menstruação, quando são recolhidas a casa dos pais e recebem todo o tipo de conselho relativo ao bom proceder. Nas palavras do guarani Teodoro Alves, líder da comunidade de Ocoy/PR: "a menina já está preparada para o mundo adulto após menstruar, é sinal de que já pode casar e constituir família, mas, para constituir família, ela deve ouvir seus parentes, ouvir seus conselhos, participar da religião, somente aí é que ela será uma mulher".

Sobre a importância desta imersão cultural, alguns rezadores Kaiowá afirmam que os suicídios que vem ocorrendo nas comunidades do Mato Grosso do Sul são, em parte, devido à má formação das crianças guarani, pois estas não estão "adornadas" conforme os antigos. Em conseqüência, elas enfraquecem, entristecem e morrem.

Por causa de los niños (as) crecen sin adorno, crecen tristes (oñemyro) y ‘caen en la cuerda’ (refiriéndose a los ahorcamientos). Cuando las criaturas non son adornadas, ellas crecen pensaado sólo en sí; se olvidan de los dueños del ser (nandejara kuéragui opoígui, oñembyai, ojejuvy, oñemyro. Nemyro), es tristeza, es crecer sin escucharle ma’s a nadie. Solita, sin los rezos y sin los versos de los viejos, la criatura crece largada, a merced del viento, de balde (okakuaa rei), hace las cosas para sí mesma.

Ainda sobre a necessidade das crianças cresceram adornadas, Pa’i Paulito, um dos rezadores Kaiowá mais respeitados e principal responsável pelas últimas festas de Kunumi pepy no Mato Grosso do Sul, profetiza "es cierto, las criaturas que non son adornadas son como maíz bichado, no sirven más para semillas".

Nesse sentido, é importante percebermos que cada grupo indígena tem sua maneira de socialização interna, de acordo com seus padrões culturais e visão de mundo, o ‘bom guarani’ jamais seria um ‘bom kaingang’. Cada povo indígena possui um ritmo próprio e uma partitura única, de acordo com suas experiências e percursos históricos, o que é louvado no ‘bom proceder’ guarani não levado em conta em outros povos. Cada sociedade educativa constrói formas distintas de interação, a partir de valores também distintos. Uma das primeiras coisas que uma criança guarani aprende é a importância das vivências místicas e a constante relação com o sagrado. Ao contrário de outros grupos que, por exemplo, privilegiam a virilidade e a disposição bélica de seus membros. Não existe um modo de ser indígena, mas, vários povos com seus modos específicos. Como nos alerta a antropóloga Aracy Lopes em relação a socialização da sociedade Xavante:

Quando alcançam de nove a doze anos de idade os meninos deixam a casa de seus pais e passam numa ‘casa de solteiros’, recebem alimentos que suas mães e irmãs lhes enviam, mas dormem sempre nessa casa. Espera-se que andem todos juntos, que dividam tudo entre si, que sejam recatados e que evitem o contato com as mulheres. Isto se prolonga por cinco ou seis anos durante os quais os meninos são formados, desenvolvendo as qualidades que nesta sociedade são prezados como típicas de um verdadeiro homem: força, resistência física, agilidade, destreza, agressividade. Também é nessa época que aprende a confeccionar seus instrumentos de trabalho e de defesa e seus ornamentos. As técnicas de caça, agricultura e pesca, bem como atividades como a dança, o canto, a corrida de toras com buriti, são também intensamente desenvolvidas nesse período .

Ao contrário do senso comum colonialista, adepto da uniformização cultural das chamadas etnias minoritários, na qual todos colonizados se parecem – "já viu um, viu todos" – estes grupos afirmam suas ricas diferenças no processo de formação de suas crianças e em um futuro de bom proceder de acordo com os costumes de cada um, como almas belamente adornadas com sua história e reko.

Assim como o filho de Luís Werá apresentou-se através de sonhos; o continnum destes grupos apresentam-se nas revelações de seus rezadores mais tradicionais, como raízes que se prestam a boas sementes. 

Paulo Humberto Porto Borges

* Artigo publicado originalmente no Caderno CEDES 56 – UNICAMP – www.cedes.unicamp.br

Bibliografia

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