O indígena Guarani pode ser caracterizado por alguns aspectos básicos:

a) pela língua Guarani

b) por ser migrante ( migração condicionada - agricultores )

c) trabalhar agricultura

d) por praticar a economia de reprocidade – jopo´i

e) viver em uma sociedade sem estado

f) viver uma religião da palavra inspirada

Segundo Melía, os primeiros Guarani eram oriundos do rio Guaporé no norte do Brasil e paulatinamente desceram o rio Madeira (em 5.000 AC) chegando a bacia do rio Paraná.

Em sua relação com as coisas da terra, pode-se afirmar que o Guarani é migrante; uma espécie de colono que jamais abandona suas áreas conquistadas e habitadas. Uma família, ou mesmo um grande grupo pode deslocar-se para outras áreas, mas, jamais o grupo todo, a terra colonizada nunca é abandonada completamente, sempre ficam alguns "tomando conta".

Os Guarani se dividem em três grupos que sofreram diferentes formas de contato, distintas adaptações históricas e culturais. Melía compara a trajetória Guaranítica com o leito de um rio que subitamente encontra um obstáculo e é obrigado o dividir suas águas. Este obstáculo é a colonização.

Melía afirma que existiram três trajetórias distintas:

A) O indígena que sofreu o impacto do colonialismo de frente e fez parte desta história, ora como índio "civilizado", ora como escravo nas encomiendas. É o Guarani fisicamente e culturalmente mestiço, o grupo que mais sofreu adaptações. E, este indígena ecomiendado termina por internalizar o desprezo do conquistador e quando possível tenta passar-se por não-índio.

B) Os Guarani reduzidos, povos indígenas convertidos ao cristianismo que viviam juntos aos jesuítas segregados do resto da colônia, como um estado dentro do estado, que com o fim das colônias não retornaram a selva, mas se tornaram músicos, marceneiros, artesões junto aos grandes centros urbanos da colônia, como Buenos Aires e Asunção.

C) Os Caaguá, que se mantiveram ao largo do processo colonizatório o tanto quanto possível, internados nas selvas platinas. Este grupo logrou manter sua cultura original quase que intacta.

Deste último grupo, os Caaguá, é que descendem os grupos Guarani Mbÿa, Chiripá ou Ñandeva e os Paitvyterã ou Kaiowá.

O conceito de terra para o povo indígena Guarani é intimamente relacionado à idéia de terra-sem-males. Esta concepção aponta a terra como um lugar no qual se vive o "bom viver". Nesse sentido, atenção: viver não é sinônimo de produzir. A terra não apenas um espaço de produção econômica, mas, é um lugar no qual se vive o teko. Como nas palavras dos velhos Guarani – sem tekoha (lugar para viver – terra), não há teko (jeito de ser). Ou seja, sem a materialidade da terra, não há possibilidade de construir-se enquanto ser cultural. Sem tekoha não há TEKO.

Um dos pontos mais importantes do TEKO é a relação de parentesco, originada no grupo familiar extenso. As relações de compadrio, de vizinhança são extremamente importantes para os Guarani, pois, somente deste modo é possível a economia de reciprocidade. Nesta economia, o indivíduo se sobrepõe não pelo acúmulo e sim pela generosidade, uma lógica antagônica a lógica capitalista, que privilegia o acúmulo de bens privados.

Nesse sentido, o comportamento predador, típico da sociedade colonialista, que aniquila a caça e privatiza os recursos naturais de coleta, é visto como um mal irreparável pelos Guarani, como uma terrível ameaça ao equilíbrio do seu mundo.

Em que pese tudo isso, o guarani atual vem mostrando uma imaginação extraordinária para recriar ‘espaços’ ecológicos semelhantes aos tradicionais, que lhes sejam verdadeiros tekoha.

Desse modo, os guarani tem sabido procurar novas terras, os últimos rincões da ‘terra sem mal’ nessa geografia devastada que se transformou seu antigo território, e encontrando, todavia, algumas terras sem dono, tem a certeza que são suas. A partir desta lógica é possível compreender o recente movimento que os grupos Guarani vem fazendo em especial no estado de São Paulo em ocupar as últimas áreas da Mata Atlântica, como que afrontando a arrogância do estado capitalista que, após desmatar praticamente toda vegetação nativa, se dá o direito de reservar áreas de preservação vedadas aos povos indígenas.

Tendo isso presente, quais são as situações atuais que dificultam a existência do TEKO Guarani?

- presença das seitas (dividem as famílias, desagregando o núcleo familiar e, consequentemente complicando a relação de parentesco );

- proximidade dos grandes centros urbanos;

- partidos políticos de direita e entidades assistenciais que com presentes dividem as famílias;

- ingerência do Estado nas sociedades indígenas ( educação, saúde e nomeando lideranças );

- a necessidade de "bicos" e trabalhos fora da aldeia que terminam por afetar a economia tradicional de reciprocidade assim como a circulação de dinheiro e venda mercadorias por não-índios nas comunidades (vendedores ambulantes e proximidade com "bares" e mercados);

- a valorização de costumes não-índios, como alimentação e alcoolismo, ocasionando sérios problemas junto ao reko ete ("jeito de ser verdadeiro").

A escola é um instrumento que introduz outras formas de ser e de pensar junto a comunidade Guarani, daí a necessidade de, em qualquer experiência escolar junto a aldeias indígenas, ter o cuidado que ouvir a comunidade e partir da lógica do grupo.

População Guarani na América Latina:

Argentina: 30 mil

Paraguai: 80 mil

Brasil: 30 mil

Leitura indicada e consultada:

NIMUENDAJU, Curt. As lendas de criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapokuva-Guarani. São Paulo: Hucitec – Edusp, 1987.

MELIA, Bartomeu. Educação indígena e alfabetização. São Paulo: Edições Loyola, 1979.

El guaraní: experiência religiosa. Assuncíon: CEPAG, 1991.

"Oralidad y Escritura en Sociedades Indígena." In: Seminário internacional: el aprendizage de lenguas en poblaciones indígenas: el caso de los idiomas indígenas. Iquique. Chile. 4 -8 de novembro de 1996.

Elogio de la lengua guarani. Asuncíon: Centro de Estudios Paraguayos "Antonio Guasch", 1995.

El guarani conquistado y reducido. Asuncíon: Centro de Estudos Antropológicos, 1993.

-MELIA, Bartomeu e GRUNBERG, George e GRUNBERG, Friedl. Los Pai-Tavyterã - etnografia guarani del Paraguay contemporáneo. Asunción: Centro de Estudios Antropológicos, 1976.