Velhos mitos coloniais

 

            A disputa pela Área Indígena Raposa Serra do Sol está reacendendo velhos mitos e velhas mitologias – todas elas preconceituosas – contra os povos indígenas. Estamos assistindo novamente á argumentos de “é muita terra para pouco índio” somado, ao sempre presente, “os indígenas não trabalham a terra como nós, são vadios e preguiçosos”, no caso, os arrozeiros de Roraima. Estas argumentações, que poderiam se somar as outras que se repetem nesta mesma linha, remontam à época da chamada “guerra justa”, na qual o Império de D. Pedro II considerava “justa” toda guerra contra o indígena que insistia em atrapalhar e obstaculizar o avanço das frentes de expansão capitalista.

        Em relação à Raposa Serra do Sol, toda a discussão pode ser medida em três questões chaves: o tamanho da área, o impacto econômico para o desenvolvimento do estado de Roraima e a demarcação em área de fronteira.

        Em relação ao tamanho da área demarcada, é necessário destacar que é inferior a outras tantas áreas indígenas brasileiras, na realidade, figura como na 13ª colocação neste ranking territorial. A Raposa Serra do Sol é suplantada pelo Parque Nacional Yanomami (9,7 milhões de hectares), pelo Vale do Javari (8,5 milhões de hectares), pela reserva do Alto Rio Negro (8,0 milhões de hectares) dentre outras áreas equivalentes. O que certa forma evidencia que a histeria em torno do tamanho é despropositada. Até por que, se somada todas as áreas de empresas multinacionais que se encontram na região amazônica, encontraremos uma área superior à própria Raposa Serra do Sol. A Volkswagen sozinha possui áreas que passam de um milhão de hectares, isto sim, um escândalo para a soberania brasileira.

        Afinal, se o problema não é o tamanho, vejamos a questão do desenvolvimento regional, tão propalado pelos defensores da não demarcação, em especial, os arrozeiros de Roraima. A partir de dados que próprio governo de Roraima possui – um intransigente defensor da não demarcação – a respeito da produtividade do estado, podemos afirmar que menos de 2% do território de Roraima cultivado com arroz já seria suficiente para alimentar toda sua população, isto, sem considerar que os indígenas – por que não? – poderiam igualmente produzir arroz em suas terras. Em outras palavras, o argumento da inviabilidade alimentar e econômica do estado é tão falso quanto grotesco e não se sustenta à luz de qualquer discussão  séria sobre o assunto.

        Por último temos a questão da demarcação das terras de fronteira, isto sim, é um problema espinhoso e que merece uma atenção especial, afinal as faixas de fronteiras são espaços estratégicos e fundamentais para qualquer país que se entende por soberano, e neste sentido, a militarização e a ocupação das forças armadas se fazem necessárias. Porém, esta questão não inviabiliza a demarcação e nem a compromete, bastando uma discussão mais rigorosa e detalhada sobre o tema, até por que, segundo a Constituição Federal, as áreas indígenas não pertencem aos povos indígenas e sim a União. É bom lembrar que o Estado de Roraima fica próximo à Colômbia que, ultimamente, vem se revelando a principal “cabeça de ponte” do imperialismo norte-americano, e não convêm termos estas fronteiras desguarnecidas.

        Enfim, derrubados estes argumentos, resta somente o mais puro preconceito do século XIX, afinal “é muito terra para pouco índio” e eles “não trabalham a terra como nós, são vadios e preguiçosos”. E, no fundo, são estes os verdadeiros argumentos que estão sustentando o discurso dos arrozeiros de Roraima.

 

Paulo Porto

Indigenista

 

 

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