FOTOGRAFIA BRASILEIRA DO SÉCULO XIX.

PEDRO VASQUEZ

 

A fotografia chega ao Brasil em meados do século XIX, e desde o início impressionou pela fidelidade que tratavam e retratava o mundo ‘real’ – como relatam os jornais da corte carioca a respeito do primeiro daguerreótipo em terras brasileiras:

"Finalmente passou o daguerreótipo para cá os mares e a fotografia, que até a só era conhecida no Rio de Janeiro por teoria [...] Hoje de manhã teve lugar na hospedaria Pharoux um ensaio fotográfico tanto mais interessante, quanto é a primeira vez  que a nova maravilha se apresenta aos olhos dos brasileiros. Foi o abade Compte que fez a experiência: é um dos viajantes que se acha a bordo da corveta francesa L’Orientale, o qual trouxe consigo o engenhoso instrumento de Daguerre, por causa da facilidade com que por meio dele se obtém a apresentação dos objetos de que se deseja conservar a imagem [...] É preciso ver a cousa com seus próprios olhos para se fazer idéia da rapidez e do resultado da operação. Em menos de nove minutos o chafariz do Largo do Paço, a praça do Peixe, o mosteiro de São Bento, e todos os outros objetos circunstantes se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela própria mão da natureza, e quase sem a intervenção do artista.”

O interesse dos diversos fotógrafos que desembarcam em nossas terras foi o imediato documentalismo da paisagem e dos povos indígenas. Uma escola que será desenvolvida posteriormente por diversos fotógrafos radicados e criados no Brasil. A seguir apresentaremos alguns destes fotógrafos a partir de textos extraídos do livro A FOTOGRAFIA NO BRASIL DO SECULO XIX de Pedro Vasquez. E Gilberto Ferrez – Pinatoceta de São Paulo.

Assim é que, malgrado algumas ausências – como as de Fidenza, Gaensly, Riedel ou Gutierrez- encontramos aqui a nata da fotografia brasileira oitocentista. Fotografia como um todo (nunca é demais reiterá-lo) tem uma qualidade excepcional, situando-se no mesmo nível do melhor da produção de países tradicionalmente consagrados. Qualidade não nos falta. O que tem faltado são oportunidades de reafirmar – nacional  e internacionalmente – esta qualidade, até que nossa fotografia seja definitivamente guindada á posição privilegiada que merece no âmbito da história mundial da fotografia.


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Excetuando-se o fato de que era alemão e fotografou a região amazônica em 1865, nada mais se sabe sobre Frisch, nem mesmo seu primeiro nome. O mais provável é que tenha integrado uma das numerosas expedições científicas que desbravavam o interior do Brasil durante o século passado, observando, medindo, catalogando e estudando com o mesmo afã espécimes de fauna e da flora, tipos humanos e acidentes geográficos. 

 

Do misterioso Coutinho conhecemos apenas a primeira letra do nome, um evasivo a que a ascendência portuguesa deixa supor esconder um provável Antonio ou quiçá Afonso. Entretanto, se sua origem e sua trajetória são pouco claras, nítido e irrefutável é seu talento, comprovado numa pequena Coleção de vistas do estado de Alagoas, focalizando Maceió, Penedo, São Brás e outras cidades das marges do São Francisco.

 

Chegou ao Recife em 1853, registrando entre outros aspectos da vida Pernambucana, a construção da estrada de ferro Recife-Cabo e a visita de Dom Pedro II à cidade em 1859 – ocasião em que presenteou o soberano com um exemplar de seu excelente Memorandum Pittoresco de Pernambuco, contendo 34 fotografias do estado, feitas entre 1854 e 1859. Inicialmente associado à Adolpho Schmidt e Germano Wanhschaffe sob a razão social de Sthal, Schmidt & Companhia, tranferiu-se para o Rio de Janeiro em 1861, passando a identificar a partir de 1863 como Stahl & Wanhschaffe Photographos da Casa Imperial, título que lhes foi outorgado em 21 de abril do mesmo ano. Posteriormente atuando por conta própria, distinguiu-se por um olhar sofisticado e ousado mais próximo da visão contemporânea do que das normas vigentes em seu tempo.

 

De origem inglesa, Mulock atuou na Bahia entre 1858 e 1861. Sediado em Salvador, ele documentou amplamente o interior do estado para a firma construtora da Bahia and S. Francisco Railway. Mulock, assim como outros pioneiros que aqui trabalham – tais como Stahl, Gaensly e Ferrez – soube transformar as encomendas das ferrovias em oportunidades de documentação paralela da paisagem circundante e até mesmo de aspectos urbanos (vide suas vistas de Salvador e Santo Amaro da Purificação) ou humanos das regiões visitadas.  Sendo justamente este poder de transcendência às limitações do trabalho de encomenda o que conferiu sobrevida e o grande poder de evocação à obra destes autores.
 

 

Ativo em Salvador nas duas últimas décadas do século passado, Lindermann associou-se a Guiilherme Gaensly, passando a gerenciar seu estúdio baiano quando este se transferiu para São Paulo em 1896. Seu momento de maior destaque foi a participação da Exposição Universal de Paris de 1889, quando exibiu vistas fotográficas dos estados de bahia e Pernambuco. Valendo sublinhar ainda a inclusão de seus trabalhos no livro Le Brésil que Levasseur fez em parceria com o Barão de Rio Branco.

 

Filho do escultor francês Zeferino Ferrez, que veio para o Brasil em 1816 como integrante da Missão Artística Francesa, Marc Ferrez fez seus estudos preparatórios em Paris antes de ingressar como aprendiz no atelier fotográfico da Casa Leuzinger em 1861. Seis anos depois instalou-se por conta própria na rua São José 96, onde permaneceu até 1837, ocasião em que um incêndio destruiu inteiramente seu estúdio acarretando a perda de seu equipamento e de todos os seu negativos. Entusiasta do formato panorâmico, chegou a mandar produzir câmaras sob encomenda em Paris para atender às suas especificações pessoais, um esmero técnico perfeitamente contrabalançado por um fina sensibilidade estética. Premiado na Exposição do Centenário da Independência dos Estados Unidos, na Filadélfia em 1876, foi o único a merecer o título de Photographo da Marinha Imperial antes de ser sagrado Cavaleiro da ordem da Rosa em 1885. Participou da Comissão Geológica do Império, integrando a expedição comandada por Charles Frederick Hart em 1875, oportunidade em que foi o primeiro a fotografar os índios Botocudo na Bahia. Nesta e em outras viagens anteriores ou subsequentes, Ferrez veio a fotografar as províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Ceará, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul – um périplo sem equivalente na carreira de qualquer outro fotógrafo oitocentista.

 

Dono da popular Casa Leuzinger, um misto de tipografia, livraria, oficina de encadernação e douração e ponto de revenda de gravuras, fotografias e material fotográfico, George Leuzinger (1813-1829) foi igualmente fotógrafo, tendo registrado aspectos do Rio de Janeiro, Petrópolis e Friburgo em meados da década de sessenta.  De origem suíça, Leuzinger colaborou com sue ilustre compatriota, o naturalista Louis Agassiz na ilustração do livro Viagem ao Brasil 1865-1866, registrando diversos espécimes de nossa exuberante fauna. Mas eram vistas do Rio de Janeiro as atrações principais de seu catálogo, relacionando o impressionante total de 337 fotografias.

 

Ativo no Rio de Janeiro entre 1863 e 1875, Vedani costumava suplementar seu orçamento com a realização de aulas particulares de desenho e de italiano, comprovando as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros no Brasil Imperial. Anunciando-se como Photographo Paizagista nos impressos da seu casa fotográfica, ele sediou-se inicialmente na rua da Assembléia 76, passando ulteriormente para a rua do Ouvidor 143. Destaca-se em seu legado uma ótima série de vistas urbanas do Rio de Janeiro, conservadas em dois álbuns na Coleção Gilberto Ferrez, subsistindo ainda vistas de Salvador datadas de fins da década de sessenta.

 

Entre os fotógrafos sediados em Petrópolis, cidade de vilegiatura da Corte em fuga do calor e das epidemias que costumavam grassar no Rio de Janeiro de então, avultua-se o nome de Klumb. Preferido pela Imperatriz Tereza Cristina, ele foi professor de fotografia da Princesa Isabel, atuando na cidade entre 1859 e o início da década de oitenta (precedente, ele trabalhara no Rio entre 1855 e 1859). Klumb impressionou vivamente seus contemporâneos com supostas fotografias noturnas que eram verdadeiramente simulações técnicas num efeito semelhante ao denominado no cinema atual da noite americana. Entronizado Photographo da Casa Imperial em 24 de agosto de 1861, Klumb publicou um livro um dos livros mais raros ilustrados com fotografias feitos no país durante o ‘seculo dezenove: Doze horas em diligência – guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, de 1872.

 

MILITÃO AUGUSTO DE AZEVEDO

Militão Augusto de Azevedo:
 Um olhar particular sobre a sociedade paulistana (1862-1887).
 
 Marcelo Eduardo Leite *  

Embora carioca de nascimento, Militão (1837-1905) torno-se paradigma por excelência do fotógrafo urbano paulista ao realizar seu célebre Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo 1862-1887, obra que evidencia a transformação da antiga cidadezinha provinciana no embrião desta que é hoje a maior cidade da América do Sul. Justamente aclamado por este empreendimento pioneiro que fez escola, Militão teve seu papel como retratista obnubliado pelo sucesso de suas vistas da Paulicéia. Produção vasta e importante que merece mai atenção, sua coleção de retratos ultrapassa a casa das 12.500 unidades, representando os mais variados tipos humanos da época, desde o Imperador Pedro II ao mais anônimo dos escravos.

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