Imagens aprisionadas e resistência indígena:
os daguerreótipos de 1844

 

Marco Morel *

Texto extraído do endereço, acesso em 25 de abril de 2003: http://www.studium.iar.unicamp.br/10/7.html

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A série de cinco daguerreótipos de dois Nacnenucks ("Botocudos") do acervo da Coleção Jacquart, guardada na Photothèque do Museu do Homem, em Paris, constitui não só raridade mas momento importante na história da fotografia e das formas de registro dos grupos então chamados "primitivos". São umas das mais antigas e possivelmente as primeiras fotos de índios do Brasil ou mesmo do mundo, tiradas na França por E. Thiesson, que lhes gravou a data no canto de cada imagem: 1844, cinco anos após o anúncio oficial da invenção da fotografia[1].

 

Estes índios nômades, caçadores e coletores, da família lingüística Macro-Jê, habitavam a região (então coberta pela Mata Atlântica ) dos rio Doce, Jequitinhonha e Mucuri, englobando Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais e envolviam-se em combates sangrentos com bandeirantes, fazendeiros e militares. Durante os séculos XVI e XVIII, quando eram chamados de Aimorés e Grens, praticamente não se conhecem ícones produzidos sobre eles, apesar de contato intenso com as frentes de expansão. No começo do século XIX, ao contrário, ocorreu uma avalanche iconográfica em torno desses grupos, aos quais viajantes, cientistas e artistas eram atraídos, paradoxalmente, pela fama de ferocidade atribuída a tais tribos. Através do desenho científico em suas diversas técnicas (água-forte, aquarela, litogravura, retratos a lápis, a óleo etc.) e estilos (romântico, neo-clássico, realista etc.), nomes como Debret, Rugendas, Maximiliano Wied-Neuwied, Spix e Martius, entre outros, registraram suas imagens. O aparecimento de tais imagens ocorre, sobretudo, após a guerra decretada por D. João VI contra esses "Botocudos" em 1808. E oito décadas mais tarde outros membros desse grupo etno-lingüístico seriam a principal atração da Exposição Antropológica Brasileira inaugurada por D. Pedro II no Rio de Janeiro. Seus descendentes vivem nas margens do rio Doce, são conhecidos por Krenak e mantêm no século XXI a memória e a língua dos antepassados, apesar das diversas transformações por que passaram.

O contato dos índios com os daguerreótipos

A fotografia recém-nascida tinha uma dimensão de lazer, consumismo, modismo tecnológico, empolgação pela novidade, mas sobretudo de possibilidade de "reprodução do real". E aí tinha usos mais "sérios". Ligou-se estreitamente à medicina e ao controle da criminalidade. Doentes mentais, prisioneiros, pessoas com deformidades físicas e povos  considerados exóticos (ex-optico, fora da ótica) passaram a ser enquadrados pelas lentes implacáveis. A fotografia torna-se uma forma de conhecimento, fixação e controle dos corpos através da imagem [2].

Na região desses índios ocorriam, ainda nos anos 1840, confrontos e formas de incorporação violenta à sociedade nacional, inclusive através do trabalho servil, seja doméstico (nas fazendas e casas urbanas), como no trabalho das obras públicas e nos arsenais militares. Havia, portanto, um tráfico ilegal desses índios como escravos. Neste contexto é que a mulher e o rapaz a serem fotografados foram levados ao Velho Mundo por um francês chamado Marcus Porte. Depois de sair das selvas e atravessar o oceano, encontraram-se em Paris, cerne do pólo civilizatório e cultural do Ocidente. A presença desses "selvagens" causou ebulição no meio intelectual parisiense. Foram tema de relatórios e acalorados debates na sessão de verão da Academia de Paris em 1843. Depois da discussão acadêmica, a decodificação: apalpados, medidos e enquadrados nos cânones do discurso institucional da Antropologia Física, além de registrados pela Sociedade de Geografia. Sem esquecer o vocabulário, publicado em edições trilíngües: francês, português e "botocudo". Foram alvo de comparações com índios norte-americanos e, em seguida, apreendidos pela fixação de suas imagens.

As placas registrando os corpos dos dois índios causaram viva impressão, inclusive pela qualidade técnica. "Depuis cette époque, dix-huit ans se sont écoulés, on n'a rien fait de plus pur, de plus limpide, de plus franc", exclamava com certa volúpia visual um crítico da arte fotográfica da época[3]. Apesar de toda carga de objetividade típica do século XIX, a apreciação dessas imagens (do ponto de vista estético, técnico ou científico) não era em geral vinculada às condições de vida das pessoas fotografadas.

Nos anos 1850 começa a se organizar no Muséum d'Histoire Naturelle de Paris (do qual se desdobraria o Museu do Homem) uma Galeria especial, dedicada a colecionar reproduções de imagens "naturais" como: esqueletos, bustos moldados sobre corpos, reprodução em plástico de pés, mãos e órgãos, enfim, tudo que pudesse servir a um estudo comparativo entre as "raças" humanas. Era a chamada Antropologia Física incorporando as tecnologias mais atualizadas da época a fim de obter as reproduções as mais "realistas" possíveis. Dentro dessa Galeria havia também "desenhos naturais". As primeiras fotografias que se incorporaram ao acervo do Museu foram as dos Esquimós e essas dos "Botocudos". Os daguerreótipos provavelmente foram feitos em Paris. Não se sabe exatamente onde, nem em que condições, e as informações são desencontradas sobre a data exata de sua aquisição pelo Museu.

A subversão das imagens

Tais fotografias, interpretadas, trazem à tona aspectos interessantes - objetivos e subjetivos. Mesmo sem palavras, elas apresentam elementos para compor uma narrativa. Os sentimentos e dores que não cabiam nos parâmetros do discurso científico ressaltam destas imagens mudas, sem palavras escritas. As fotos indicam algumas pistas, digamos, materiais. O corte de cabelo, colar, botoque e furo no lábio apontam identidade étnica, e que eles nasceram nas selvas. Numa visão de conjunto impressiona o ar de melancolia e abatimento: o pano no colo camufla a nudez. O local equivalia a um estúdio, onde as pessoas fotografadas são enquadradas em determinada composição visual. E nada de cenários exóticos, palmeiras ou vegetação tropical - a intenção era o olhar científico, rigoroso, implacável.

A mulher fotografada encara o interlocutor (até hoje): olha sem rodeios para o aparelho (e para tudo que está por trás dele), mãos cruzadas placidamente no colo. Jovem, é uma "Gioconda" dos trópicos, a nos desafiar com expressão enigmática, contundente e até meiga. Diante do naufrágio de sua vida e de sua coletividade ela parece reunir sofrimento, solidão e colocá-los, oferenda, na expressão eternizada na imagem. O rapaz, ainda mais jovem, um adolescente, magro, ossos do tórax aparecendo, guarda certo vigor físico, de quem era musculoso mas emagreceu. Embora de frente, mantém pálpebras semi-cerradas no momento da foto, o que lhe dá aparência esquiva. Ainda preserva certa altivez, quase apagada num rosto endurecido pela raiva muda e impotente, talhado em pedra e desolação. As manchas na pele (face e braço direitos) indicam que estava doente. A imagem de perfil, pescoço virado bruscamente, dá a impressão de que oferece a cara à tapa, como para evidenciar a violência que sofria.

O clima de curiosidade em torno destes índios expressava significativa mistura de espetáculo atraente e seriedade científica: a tênue fronteira entre o exato e o exótico. De certa forma eram tratados como animais selvagens que precisavam ser melhor conhecidos. O primeiro gorila "descoberto" pelos europeus na África em 1840 causara sensação... E até princípio do século XX o Jardin d'Aclimatation, um dos parques zoológicos de Paris, ostentava entre suas atrações "aborígenes" africanos e australianos com trajes típicos em cercados que reproduziam seus modos de vida originais.

Mais do que registro neutro ou "real", estes daguerreótipos trazem uma carga civilizatória. Mesmo que a intenção dos detentores das imagens fosse fazer estudos "raciais", as expressões e condições de vida desses índios, registradas pelos fotografias, são também significativas. Abandonando a situação de cobaias, esses índios se expressaram. Como se os objetos fotografados se apropriassem da imagem e subvertessem seu significado, criando outros discursos não verbalizados que transcendiam o movimento de fixação, conhecimento e controle contido no ato de fotografar. À sua maneira, esses índios posaram, responderam com seu corpo tudo aquilo que não aparecia nas suas vozes: elaboraram seu discurso, contaram sua história, ainda que sem palavras.

A realização destes daguerreótipos significou uma evolução tecnológica da civilização ocidental. Guerra e imagem interligadas. Paralelas ao relâmpago dos fuzis e facões da Conquista, vinham as Luzes do progresso, seguidas dos flashes das primeiras câmeras. Os temíveis "Botocudos" finalmente fotografados. Esfinges captadas pela tecnologia e decifradas pela racionalidade científica, suas imagens guardam intactas a opressão a que foram submetidos. Tão diferentes da imagem mítica do "homem novo americano" perpassada pela Ilustração, tão distintos das alegorias românticas e patrióticas indianistas em voga no século XIX - estes índios retratados não apresentam tampouco a expressão feroz de canibais devoradores característica dos registros do período colonial. E menos ainda ostentam os coloridos tons de multimídia dos índios em exposição visual do século XXI. Este homem e esta mulher (classificados na Academia de Paris no campo da Zoologia) parecem nos dizer que seus "espíritos" e seus corpos estavam irremediavelmente aprisionados ali, no momento em que seus rostos fixaram-se nas placas dos daguerreótipos.

* Professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

[1] Consultar o artigo Cinco imagens e múltiplos olhares: ‘descobertas’ sobre os índios do Brasil e a fotografia do século XIX, de Marco Morel, Rio de Janeiro: História,ciência e saúde – Manguinhos, vol. VIII (suplemento), 1039-58, 2001 ou a versão francesa publicada em Histoire et Sociétés de l’Amérique latine (no. 11-1, Paris, Harmattan / Aleph, 2000).

[2] FRIZOT, Michel. Corps et délits: une ethnophotographie des différences.  In:   _____  (dir.), Nouvelle histoire de la photographie. Paris: Adam Biro, 1994, p. 259 - 271.

[3] CONDUCHÉ, M. E. , La Photographie au Muséum d'Histoire Natrurelle, La Lumière - Revue de Photographie, Paris,  n° 16, 1858.

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