ALDEIA DE SAPUKAI

Apresentação

A idéia de se coletar estes breves histórias da comunidade Guarani de Sapukai surgiu do intenso interesse demostrado pelos (as) professores (as) da rede municipal de Angra dos Reis em conhecer um pouco mais sobre os diversos aspectos que integram e compõe a temática indígena, em especial, os atuais grupos indígenas do estado do Rio de Janeiro. Interesse que foi amadurecido durante as diversas oficinas e conversas pedagógicas entre os professores indígenas da comunidade de Sapukai e professores (as) de Angra. De certa forma, pode-se afirmar que este enamoramento é mútuo, pois os professores Guarani sabem que o futuro dos povos indígenas dependem, entre outras coisas, do grau de conscientização e compromisso da sociedade não-índia, e, em especial, do olhar crítico de nossos educadores (as).

Nós, membros da assessoria e professores Guarani, apostamos que a informação é uma arma indispensável no combate a intolerância e ao preconceito que diariamente sofrem os povos indígenas, seja através de estereótipos veiculados por livros didáticos, seja pela teimosa (e proposital) insistência em substituir os quinhentos anos da conquista pelos "quinhentos anos do descobrimento".

Os textos a seguir foram coletados pelo pedagogo Domingos Barros Nobre.

Assessorias:

Domingos Barro Nobre

Eunice Pereira da Silva

Paulo Humberto Porto Borges

Professores Guarani:

Algemiro da Silva

Celso Aquiles

Ernesto da Silva

Renato da Silva


 

Histórias Guarani

Estas histórias pertencem a uma coletânea levantada entre os Guarani a respeito das histórias que costumam ser contadas para as crianças mais novas. Como se pode notar, são histórias "para crianças" destinadas um público infantil. Algumas destas histórias são utilizadas pelos professores guarani na Escola Indígena Guarani Kyringue Yvotyty em suas aulas. Por serem histórias em tom de narrativas, optamos por manter (onde foi possível) a linguagem coloquial própria da oralidade e da tradição oral.

 

História 01

Narrada pelo cacique João da Silva

  narom.jpg (18838 bytes)No começo todos animais falavam, até a cabra e o cachorro do mato. A cabra estava no pé de laranja, e ela bateu com a cabeça para cair laranja, batia e a laranja caia. Aí o cachorro do mato chegou e foi convidado para chupar laranja. Mas ele perguntou para a cabra:

- Como você consegue derrubar?

A cabra respondeu:

- Você bate a cabeça na laranja aí ela cai, olha, eu faço assim....

A cabra se afastou distante um pouquinho, veio correndo e bateu no pé de laranja, aí a laranja chacoalhou e caiu. Aí os dois chuparam.

Quando acabaram as laranjas, a cabra falou assim para o cachorro:

- Agora é a sua vez.

Aí o cachorro afastou uns sete ou oito metros, veio correndo, bateu no pé de laranja e quebrou a cabeça porque ele não tem chifre. Aí acabou a festa dele.


 

História 02

Narrada pelo cacique João da Silva preguim.jpg (12415 bytes)

  Esta é a história do macaco e do guará.

Diz que um dia o macaco convidou o companheiro guará para chupar cana. Tinha um canavial perto de um morador, e na área tinha um cachorro bastante bravo.

Aí diz que o macaco e o guará foram juntos. Aí pegaram e começaram a chupar a cana. Tinha muita cana, cana boa e doce. Chupavam...

Aí, diz que o macaco quando chupava aquela cana gritava:

- Ai! Que doce!

Aí, diz que o companheiro dele disse:

- Calma aí, fica quieto, que daqui a pouco vem o cachorro pegar a gente.

Aí diz que o macaco falou:

- Não, ele não escuta não.

Porque ele sabia que ele ia subir numa árvore, e aquele companheiro não sabia subir.

Aí o macaco chupava e gritava:

- Ai! Que doce!

Aí o companheiro falava:

- Fica quieto! Fica quieto! O cachorro....

Aí quando veio o cachorro...o macaco nem se preocupava porque sabia trepar em árvore. Aí o macaco subiu numa árvore e o companheiro dele correu pelo mato, correu, correu...e o cachorro vinha junto, e corria, corria...até que bem tarde ele achou um buraco de castor e entrou, aí escapou.

Aí, diz que no outro dia, noutro mês mais ou menos, eles se encontraram de novo.

Aí o macaco falou:

- Mas como é que você escapou?tatum.jpg (16434 bytes)

- Escapei por essa coisa...

Disse o guará e mostrou um par de botas:

- Eu encontrei estas botas, se não tivesse encontrado aí que eu morria mesmo. Aí eu achei essas botas e calcei, coloquei nos meus pés e subi em uma árvore.

- Ah! Subiu mesmo é? Disse o macaco.

- Subi sim!

Aí o macaco pensou e falou:

- Ah! Então me empresta aí essas duas botas.

- Empresto sim.

Aí o macaco colocou as botas e disse:

- Ah, então chupar cana de novo.

Aí, diz que eles estavam lá...chupavam....

Aí o macaco em cada chupada que gritava:

- Ai! Que doce! Gritava assim...bem alto.

E o guará falava:

- Calma aí...olha o cachorro.

E o macaco falava:

- Não estou com medo, agora estou com as botas...ai que doce!

Aí daqui há pouco os cachorros vieram de novo. Aí o guará correu e o macaco esperava, tranquilo, um pouco ainda. Aí chegaram os cachorros...o macaco tentou trepar na árvore mas ele caía, subia e caía. Aí o cachorro pegou ele e comeu.


 

História 03

Narrada pelo vice-cacique Luiz Euzébio

  Diz que o mico foi pescar. Ele estava no rio pescando quando o tigre chegou: pacam.jpg (16022 bytes)

- O que é que você está fazendo?

O mico respondeu:

- Vamos comer peixe? Ah...se você tem fogo podemos comer.

Aí o tigre falou:

- Ah, não tenho fogo....como é que iremos fazer o fogo?

Aí o mico ficou pensando, pensando, olhando de lado e disse para o tigre apontando a lua:

- Oh, tigre! Vai buscar o fogo, lá em cima tem fogo, pode subir lá!

O tigre ficou pensando e disse:

- Tá certo...eu vou.

Passou um tempo e o tigre voltou:

- Não cheguei lá.

O mico falou:

- Você não chegou agora não podemos comer o peixe. Pois tente de novo, suba pelos morros, pelas cordas do cipó!

Aí o tigre se animou e saiu correndo.

Aí o mico se aprontou, pegou o peixe colocou no seu bolsinho e foi correndo subindo lá em cima, trepou em um coqueiro, bonito coqueiro. Ficou lá na ponta fazendo fogo. O mico tinha fogo. Tinha fogo daquele isqueiro...batia...tinha pedra e um canudo de taquá. Batia, batia e fez o fogo...e ficou lá cozinhando o peixe.

visaom.jpg (14062 bytes)Aí o tigre veio, chegou e ficou procurando o mico e não achou mais. Que dê o mico?! Por aí...e o tigre foi seguindo o rastro dele e achou a trilha dele subindo. Aí achou o mico cozinhando o peixe lá em cima. E gritou:

- Oh, mico! Como você subiu aí em cima?

- Eu subi de costas, com a bunda prá cima!

E o tigre ficou admirado.

- Será que eu também consigo?

- Consegue sim, pode vim!

- Mas quando eu chegar aí como é que eu vou fazer? Ainda gritou o tigre.

- Ora...quando você chegar aqui eu seguro você pelo teu rabo! Respondeu o macaco.

Aí o tigre foi subindo de bunda prá cima, bem devagarinho, sempre perguntando para o macaco:

- Tá perto!

E o mico respondia:

- Tá quase!

- Será que eu já estou perto?

- Tá quase, pode subir um pouquinho mais que eu já estou pegando o seu rabo.

Aí, quando tigre chegou bem perto o mico pegou no rabo, e a água tava fervendo peixe, pegou a panela e virou e largou o rabo...e tigre foi pro chão.

Aí no chão o tigre ficou pensando: "O mico sem-vergonha, me fez uma coisa dessa..."

Aí pediu para o vento para morder todo o mico. Aí o vento começou a chegar e mico foi percebendo que ia cair e o tigre abriu a boca para pegar o mico - e foi tão rápido que o tigre engoliu o tigre sem mastigar. Aí o tigre seguiu seu caminho. Mas o mico que estava lá dentro, tirou seu canivetinho e começou a picar, bem devagar, as tripas do tigre. Aí o tigre sentiu o corpo enfraquecer, enfraquecer, doendo muito.

Aí o tigre percebeu que não tinha mais jeito e foi procurar um pajé. Mas não é um pajé de gente, é um pajé de tigre. Aí chegou perto da casa do grilo e gritou:

- Ei, você é pajé?

O grilo respondeu:

- Sou.

Aí o grilo olhou, olhou a barriga e disse:

- Acho que a comida que você come fez mal para você. Não tem mais jeito mesmo. Mas tem outro pajé, quer ir lá, pode ir.

E o tigre foi. Parou na casa da aranha, que também era pajé, e ela falou:

- Você tá muito mal, você vai morrer mesmo, não posso te curar.

Aí o tigre ficou muito sentido e pensou: "Não tem mais jeito mesmo, procurei dois pajés e ninguém pode me curar". No outro dia ele se levantou, foi andando pela estrada e morreu.

O mico havia cortado todas as tripas e coração e matou o tigre. E aí o mico ficou pensando: "Poxa, agora como é que eu vou sair? Se sair pela boca ele pode me morder, se sair pelos olhos ele pode me enxergar, se sair pelo nariz ele pode me cheirar, se sair pelo ouvido ele pode me ouvir, se sair pelo pé ele pode me pisar, se sair pela mão ele pode me pegar..." Aí o mico pensou, pensou e resolveu abrir a barriga do tigre e saiu. Daí ele ficou preocupado: "Poxa, agora como é que eu vou fazer? Tem o outro companheiro do tigre que vai ficar sabendo e vai querer me pegar. Como eu vou fazer?". Aí ele voltou até o tigre morto e com seu canivete cortou a mão dele e o dente, tirou o dente e colocou na sua bolsa. E aí foi andando pela estrada. A tardezinha fez um foquinho e sentou, ficou sentado lá.

Aí chegaram quatro tigres e falaram para o mico que continuava sentado:

- Agora você não vai escapar. Não tem mais jeito mico!

Aí o mico disse:

- Puxa, vou ter que matar mais tigre de novo...eu falei que se aparecesse tigre por aqui eu matava de novo. Já matei muito tigre. Oh, eu tenho os dentes (e mostrou o dente do tigre), oh, dente feio!

Aí os tigres pesaram: "Será que este mico esta mentindo?".

Aí o mico falou:

- Agora vou pegar a mão do tigre deste tamanho (e mostrou a mão do tigre morto), oh, que mão de tigre mais feia.

Aí um tigre ficou olhando para o outro:

- Olha, não é mentira não. Vamos embora.

Aí os tigres foram embora e o mico escapou.


 

História 04

Narrada pelo vice-cacique Luiz Euzebio pedram.jpg (16012 bytes)

Diz que tinha uma família pobre, trabalhadora, que tinha um patrão que morava longe, em um sítio.

Aí um dia a esposa dele resolveu:

- Você tem que sair para vender essa nossa vaquinha.

Aí o marido dela pegou a vaquinha e saiu pela estrada, depois de um tempo encontrou um homem que vinha vindo com um porco.

- Ei, onde é que você está indo com essa vaquinha?

- Estou indo vender.

- Não que trocar pelo meu porco?

- Bom...pensou o homem...já que você quer trocar, vamos fazer negócio então.

Aí o homem trocou sua vaquinha por um porco. Daí ele continuou e mais para a frente ele encontrou um outro homem com um cabrito.

- Ei, aonde você vai com esse porco?

- Vou vender.

- Quer trocar por esse pato cabrito?

Aí o homem trocou. Andou mais um trecho e encontro um outro que vinha com um pato assado:

- Ei, quer trocar esse cabrito por esse pato assado?

E ele trocou. E ia segundo agora com o pato assado quando encontro um homem que vinha com uma galinha, e homem também perguntou:

- Ei, aonde vai com esse pato assado?

- Eu vou vender.

- Quer trocar por essa galinha?

O homem pensou...pensou e de novo resolveu:

- Já que você quer trocar vamos fazer negócio.

Aí já estava chegando na casa do patrão dele, já estava bem de tardezinha e o patrão dele não estava em casa. Como estava com muita fome mandou malar a galinha e comeu, ele comeu porque estava com muita fome mesmo.

Aí a noite, o patrão dele chegou e perguntou:

- Por que é que você veio?

- Minha mulher mandou vendera vaca, aí eu saí e vim até aqui.

- E o que é que...vendeu, trocou, que é fez da vaca?

- Eu vinha vindo a uma altura e encontrei com um homem que ia indo com um porco, ele queria trocar e eu troquei.

- Bom...falou o patrão...e cadê o porco?

- Pois...eu vinha vindo com o porco e encontrei com um homem que estava indo com um cabrito.

- E o cabrito?

- Vim mais uma altura e encontrei outro homem que ia indo com um pato, ele queria fazer negócio, queria trocar o pato pelo cabrito e eu troquei.

- E o pato? O que fez do pato?

- O pato eu troquei por uma galinha, é que encontrei um outro homem que queria fazer negócio e troquei.

- E a galinha?

 A galinha eu mandei matar porque estava com muita fome e jantei ela.

- E agora, e sua mulher? Que é que vai fazer?

- Não sei...

Aí diz que o patrão pensou e resolveu fazer uma proposta:

- Olha, eu vou te fazer uma proposta, você voltando para casa, você contando tudo o que você fez para sua mulher e ela não ficar brava, não brigar com você, vou te dar mil cabeças de gado e mais uma porção de dinheiro. Mas se ela ficar brava eu não vou te dar nada.

Aí o homem disse:

- Então está certo...vamos embora.

O patrão dele pegou dois cavalos, um para cada um e forma para a casa dele.

Quando chegou de volta em casa a mulher perguntou:

- Aí, vendeu bem a vaquinha que você levou?

Ele falou:

- Logo que eu saí encontrei um homem vindo com um porco, aí eu troquei pelo porco.

Aí a mulher dele falou:

- Ah...então tá bom...nós precisamos mesmo de ter um porquinho aqui. E o porquinho?

- Aí eu fui indo com o porco e encontrei um homem com um cabrito, ele queria trocar com o cabrito, aí eu troquei.

- Ah...então tá bom, aqui tem muito lugar para ter criação de cabrito, vai ser bom a gente ter um cabritinho, mas e o cabritinho?

- Ah, o cabrito eu troquei por um pato, um outro homem queria trocar aí eu fiz negócio.

- Ah, então té bom...tem um rio pertinho daqui para a gente criar pato. E o pato?

- Pois...logo quando eu estava chegando veio um homem com uma galinha, ele queria trocar a galinha e eu troquei.

- Ah...então tá bom, vamos começar um criação de galinha...

- Mas ter galinha é que esta difícil....eu cheguei de tardezinha, estava com fome e mandei matar a galinha e comi.

- Ah, então tá bom...quando a gente viaja a gente sente fome mesmo.

Ai diz que o patrão estava surpreendido com mulher que não ficava brava nunca, tudo que ele contava a mulher achava bom. Então, aí, ele ganhou a aposta: mil cabeças de gado e uma porção de dinheiro...!


 

Figuras extraídas do Livro Mitopoemas Yãnomam - Publicação Olivetti do Brasil SA. - Acervo Museu do Índio

 

Livros Paradidáticos

BOULOS JR, Alfredo. 19 de abril, o índio quer viver. Col. "Construindo Nossa Memória". São Paulo: FTD, 1992.

CIMI-CNBB. Nossos direitos, nossa vida. Brasília: CIMI, 1987, série A, vol. 2.*

Queremos viver. Brasília: CIMI, 1987, série A, vol. 1.

Somos assim. Brasília: CIMI, 1988, série A, vol. 3.

CUNHA, Manuela Carneiro da. (org) História dos Índios do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

PAULA, Eunice D. de e outros. Confederação dos Tamoios. Petrópolis: Vozes, 1986.

História dos povos indígenas. Petrópolis: Vozes, 1986.

PREZIA, Benedito. Terra à vista, descobrimento ou invasão. São Paulo: Editora Moderna, 1992.

PREZIA, Benedito e HOORNAERT, Eduardo. Essa terra tinha dono. São Paulo: FDT, 1995.