Jean Baptiste Debret "O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se ás classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo.
O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. "

Walter Benjamin

Da História

Paulo Humberto Porto Borges

Em março de 1997 aceitei o convite feito pelos educadores da Escola Indígena Guarani Kyringue Yvotyty da aldeia de Sapukaí para integrar a sua equipe de assessoria não-índia -  formada por Domingos Barros Nobre do Centro de Educação Comunitária/CEDAC e Eunice Dias do Conselho Indigenista Missionário/CIMI - a fim de colaborar na prática e ensino de História visando uma educação escolar intercultural (posteriormente, este trabalho transformou-s na dissertação de mestrado "Ymã, ano mil e quinhentos: escolarização e historicidade Guarani Mbya na aldeia de Sapukaí", defendida na Faculdade de Educação da Unicamp). Na ocasião, os educadores Guarani argumentavam que gostariam de "ensinar a verdadeira história Guarani, a história dos antigos", em contraposição a história narrada e confirmada pelos mais diversos livros didáticos que lhe caiam nas mãos. Nestes, no mais das vezes, pouca ou nenhuma referência se fazia a temática indígena e, quando havia, frequentemente não era muito específica e sequer se fazia a tão necessária diferenciação entre os povos indígenas do Brasil, caracterizando os mais de 180 povos, cada qual com seus costumes e tradição, simplesmente como índios.

É preciso ter claro que quando estes guarani afirmam que gostariam de ter uma "história bem ensinada", eles estão se referindo a uma História que reforce e reconheça seu projeto étnico-cultural. Não podemos esquecer que o ensino e o trato com a História sempre esteve intimamente ligado a identidade de um povo. Uma das principais funções da História e do saber histórico é contribuir com a inteligibilidade do passado e dos vínculos entre este e o presente, o que, sem dúvida, termina por construir e consolidar o ethos de um determinado grupo sob um determinado prisma. Pois se a conquista da América é vista com um acontecimento feliz para a história ocidental, muito provavelmente, não o é para uma possível historiografia indígena.

Segundo os educadores indígenas da Escola Kyringue Yvotyty, o ensino de História a ser ministrado em sala de aula deveria abarcar a "História do Povo Guarani" e a "História dos Povos Indígenas" como um todo. No entanto, além dos chamados "documentos oficiais" produzidos pelos conquistadores, existem poucas evidências materiais que tenham sido deixadas pelas populações autóctones da América Portuguesa. O que nos dá poucas possibilidades de, através das retinas européias, construir uma visão a partir dos povos indígenas, no caso, o grupo Guarani. É necessário promover o diálogo entre estas diversas versões, entre a memória Guarani e a extensa documentação produzida à respeito dele. Porém, não se trata de contrapor e confrontar uma documentação com outra, a fim de arrancar a verdade como se arranca uma confissão, mas de uma aposta num possível intercâmbio. Um intercâmbio que não acontece com a facilidade de uma conversa entre amigos à mesa de um café, mas, como a conversa tensa de velhos conhecidos que precisam acertar antigas diferenças. Neste diálogo, entre uma visão indígena e uma documentação não-índia, terminei por eleger dois interlocutores privilegiados: a memória histórica da comunidade Guarani, perpetuada por uma forte tradição oral, e, dentre as várias fontes não-índias a disposição, imagens na forma de gravuras, pinturas e fotografias construídas por viajantes, antropólogos e fotógrafos oficiais do antigo SPI sobre os Guarani e outros povos indígenas.

A opção de trabalhar com um grande número de documentos imagéticos deveu-se basicamente a dois motivos:

a) a dificuldade que alguns professores e lideranças Guarani possuem em relação ao domínio dos códigos da leitura e escrita,

b) a imagem fotográfica enquanto documento que permite aflorar aspectos da "perspectiva histórica do sujeito", no caso, os educadores Guarani de Sapukai, que  dificilmente viriam à tona de outra forma.

Um dos principais frutos deste pretenso diálogo entre a memória guaranítica e a documentação juruá produzida sobre este povo, se deu na elaboração do livro didático de História Nhaneretarã Kuery Va’e Kuery Nhanenãnbu’aa ("Nosso Povo, Nosso Passado, Nossa Memória") no qual utilizamos relatos Guarani a partir das gravuras de J. B. Debret e das xilogravuras pertencentes ao livro "Duas Viagens ao Brasil" de Hans Staden. Em sua maioria são relatos que enfatizam a conquista, registrando o que seria uma visão indígena dos quinhentos anos da América e o trauma que representou a chegada dos soldados europeus. Como no relato do Guarani Valdo Rodrigues da Silva que ao interpretar a clássica prancha de Debret Soldados índios de Curitiba escoltando selvagens chegou a criar diálogos entre os personagens. Uma produção que beira a literatura, tal é sua imaginação, permitindo e abordando vários viéses históricos como a conquista, as bandeiras, a escravidão indígena, o papel das lideranças tradicionais e outros.

Mokoi kunha, ha’e irundy kyringue’i.  Pytu tei ogueraa tema mombyry, omoxã eravy. Kyringue’i haxe ma okaruxevy tei, jurua kuery ndoikuaaxei.  Ha’eramo ixy kuery aipoe’i:
- Jajaru rive rãema!
- Nhandekuery aema Nhanderuvixa nhanemonguetaa nanhaendui vyma kova’e rã py nhavae.
"São duas mulheres presas carregando cinco crianças que estão chorando de fome, e mais dois soldados que estão acompanhando. Elas conversam:
- A gente está presa porque não ouviu o cacique.
- Puxa, a gente devia ter ouvido o cacique. Agora a gente está presa e nenhum parente nunca mais vai saber o que aconteceu com a gente."

Ou mesmo no texto do professor Guarani Algemiro da Silva em relação as terríveis consequências da conquista para os povos indígenas, aludindo aos constantes deslocamentos e rotas de fuga:

Jean Baptiste Debret

Ymã, ano mil e quinhentos guikue ore retarã kuery onhepyru oguata.

Oeka ikua porã haguã hetava’e kuery omoangueko rei ramo haetei hetava’ekuery ojopyxe mymbarami oguereko haguã. Heta nhaneretarãkuery okanhy raka’e ka’aguyre ojekapa haguã hetava’e kuerygui.

Joguerogua taa rupi ojexavai okaruxereimbovy’ey oke joguerouy.

Joguetaroguataa ramive ha’e jogueroayuu ko’e nhavo mboapy’i jogueraa: petei ava ha’e mokoi kunha jexavaigui kunhava’e ojeupi yvyra’a oityhaguã ha’eaja avava’e onhangareko mba’a everei ndoikoi haguã.

Algemiro da Silva

"Desde o ano de 1500 nosso povo indígena começou a andar para procurar lugar para viver feliz. Os brancos pertubaram porque os brancos queriam pegar os índios para tratar como animais. Muita gente se embrenhou nos matos para escapar dos brancos. No caminho sofreram muita fome e sede, e em muitos lugares paravam para dormir e descansar"

Estas várias e distintas interpretações históricas produzidas pelos professores Guarani em busca de uma "história bem ensinada" - mas não no sentido de uma "história verdadeira", e sim, em relação a uma história pautada na tradição e memória Guarani - vem apontando uma versão bem distinta das pretensas comemorações que a mídia nacional vem insistindo em organizar. E este contraponto, justamente no momento em que repensamos termos como "descobrimento", não deixa de ter seu significado.

Jean Baptiste DebretDa Imagem

Neste trabalho, a imagem - tanto a imagem fotográfica quanto aos documentos imagéticos utilizados e reconstruídos pelos professores Guarani através de sua tradição e narrativas - são formas de buscar nos fragmentos do passado uma memória que salvaguarde a tradição e coloque a salvo os inúmeros mortos derrotados pelo inimigo ao longo destes quinhentos anos de conquista. Seja através da rememoração e consolidação de uma visão indígena sobre os 500 anos de conquista, seja através da construção de um acervo fotográfico sobre a vivência e resistência Guarani.


ALGUMAS PRANCHAS DE DEBRET